Os cavalos também se abatem
Da raiva
Tenho muito medo da incompreensão e por isso me torno tão palavroso em situações limites. Falo muito, tento explicar o meu ponto de vista de diversas formas, uso e abuso dos exemplos simbólicos. Normalmente o resultado é inverso ao que devia ser: torno-me ainda mais incompreendido. Depois, bem, depois… Depois chega a frustração de não me fazer compreender e a explosão de raiva. E todos sabemos como somos menos bonitos enraivecidos. Eu não fujo à regra. Enraivecido sou uma besta, calmo sou todo bondade. O contraste é grande, demasiado evidente. Por isso é preciso uma dose forte de paciência para suportar. Tão forte que ninguém a tem. Nem eu.
Antologia Pessoal #2
Um poema tenrinho pode ser
Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.
mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.
mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.
mas pode ser tão difícil.
mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.
Nuno Moura em poetas sem qualidades
Um poema tenrinho pode ser
quando tu morreres vou tirar a carta
ou
o mosteiro dos pulmões ataca uma barriga sem grades
e nasce uma quantidade razoável de imagens
indo da agulha de cintilo
aos dentes de um morcego beija-mão.
mas pode ser escrever chamar otários
sabrões
zarpos
garôlos
altos comissários
nas paredes para as ruas
das garagens-oficina nova era automóvel.
mas pode ser amor drógádo
síque
não presta.
mas pode ser tão difícil.
mas pode ser
liga à tua antiga madrinha-de-guerra
vai ter com ela saca-a ao marido
mexe com esta merda
pá.
Nuno Moura em poetas sem qualidades
O que os outros disseram por mim #4
"Para mí el cuento es un género realmente más importante que la novela porque hay que concentrarse en unas cuantas páginas para decir muchas cosas, hay que sintetizar, hay que frenarse; en eso el cuentista se parece un poco al poeta, al buen poeta. El poeta tiene que ir frenando el caballo y no desbocarse; si se desboca y escribe por escribir, le salen las palabras una tras otra y, entonces, simplemente fracasa. Lo esencial es precisamente contenerse, no desbocarse, no vaciarse; el cuento tiene esa particularidad; yo precisamente prefiero el cuento, sobre todo, sobre la novela, porque la novela se presta mucho a esas divagaciones."
Juan Rulfo em "El desafío de la creación"
Juan Rulfo em "El desafío de la creación"
Antologia Pessoal #1
Palavras em busca de meu pai, no endereço que calculo
O meu capital de vida já está gasto e estou a viver
só de crédito. Crédito que o destino me dá por
distracção, por piedade, por curiosidade
Julio Ramón Ribeyro
[tradução de Tiago Szabo]
mais dia, menos dia, José,
apareço por aí,
levado, à boleia, pela alazão da morte.
fiz lista de quase tudo
o que te dará consolo
- um pouco de água azeda,
o cheiro do mar, um rádio pequenino,
laranja de muito sumo e livros de Conrad.
guarda-me um lugar de alma
a dois palmos da tua mão,
por causa do gume da noite
ou do silvo de cada manhã.
e deixa dormir o meu silêncio
com a face pousada no teu ombro,
enquanto, baixinho, a tua voz
chama pela nome cada lágrima.
por aqui, o que se foi do medo
anda regressado.
coisas de adivinhar, como calculas,
emendas de verso em branco no soneto da utopia.
o nosso anjo-da-guarda
está dentro da nossa senhora, disseste-me.
e desenhaste uma asa no molhado da areia.
lembras-te?
boa noite, meu pai!
Emanuel Jorge Botelho em Resumo - a poesia em 2011
Seis dicas de John Steinbeck
"1. Abandon the idea that you are ever going to finish. Lose track of the 400 pages and write just one page for each day, it helps. Then when it gets finished, you are always surprised.
2. Write freely and as rapidly as possible and throw the whole thing on paper. Never correct or rewrite until the whole thing is down. Rewrite in process is usually found to be an excuse for not going on. It also interferes with flow and rhythm which can only come from a kind of unconscious association with the material.
3. Forget your generalized audience. In the first place, the nameless, faceless audience will scare you to death and in the second place, unlike the theater, it doesn't exist. In writing, your audience is one single reader. I have found that sometimes it helps to pick out one person—a real person you know, or an imagined person and write to that one.
4. If a scene or a section gets the better of you and you still think you want it—bypass it and go on. When you have finished the whole you can come back to it and then you may find that the reason it gave trouble is because it didn't belong there.
5. Beware of a scene that becomes too dear to you, dearer than the rest. It will usually be found that it is out of drawing.
6. If you are using dialogue—say it aloud as you write it. Only then will it have the sound of speech."
John Steinbeck à Paris Review
Das músicas maiores que a vida #1
"Oh," she said: "I suppose you seldom think about me.
"Now," she said: "now that you've a family of your own.
"Still," she said: "It's so blessed good to feel your body.
"Lord," she said: "Casey, it's a shame to be alone."
Kris Kristofferson - Casey's Last Ride
Da Vergonha de Steve McQueen
Shame de Steve McQueen tinha tudo para me agradar e agradou mas sem me convencer totalmente.
A personagem principal é plana, não tem a espessura que merecia ter. McQueen quis falar da perversão sexual e arranjou uma personagem para servir esse seu propósito. Essa desigualdade entre a premissa e a personagem é patente em todo o filme. Brandon não existe para além do seu vício em sexo. A irmã de Brandon só existe na história para explicar a origem da perversão de Brandon. A construção das personagem e do próprio enredo é esquemática e utilitária.
Shame é bonito, com tudo no sítio, mas falta-lhe sujidade – para a ter não basta ter nudez frontal e muita foda. É um filme com muita carne (literal e metafórica) mas falta-lhe sangue e vísceras. A estética pela estética é quase sempre inócua: abre espaço à contemplação, mas não deixa espaço para a identificação.
Da desistência
Quando era miúdo os meus professores diziam que eu devia ir para político. Elogiavam-me as capacidades oratórias; a certeza e a assertividade com que defendia as minhas ideias. Com o passar dos anos, depois de muitos livros, discos e filmes, deixei de ter certezas. Hoje o meu discurso oral é caótico, feito de conceitos intricados que para mim são claros mas que não o são para os outros. A frustração de ser incompreendido é um sentimento que conheço bem e com o qual já não me incomodo. Sacudo os ombros com indiferença e desisto facilmente de me fazer compreender. Isso não é bom.
Do recado
Sempre te escudaste nos erros dos outros para desculpar os teus. A tua inteligência – que nunca te cansas de apregoar – ainda não te permitiu entender que vais magoando com os teus gestos egoístas as pessoas que gostam de ti. É uma posição confortável, mas impeditiva de perceber que o teu principal inimigo és tu. Tens que lutar contra ti todos os dias, entender os teus fantasmas, evitar a tua inércia, renegar a auto-admiração.
Se é verdade que já desisti de ti, não deixa de ser menos verdade que ainda me sensibiliza o teu anunciado naufrágio. Talvez isto seja um texto ressabiado, talvez não. Talvez seja um recado amigo, de quem se preocupa contigo e se revê em ti.
(sim, somos muito parecidos - este texto é sobre ti, mas podia ser sobre mim)
A biografia do Pacheco
Como podem ver na imagem, foi lançada uma biografia do Luiz Pacheco. É uma boa notícia, é uma óptima notícia. O Pacheco merece que não nos esqueçamos dele. Merece também que não nos esqueçamos daquilo que é, a meu ver, o seu maior contributo: os seus livros. É bom que se fale dele, da figura que foi e da imagem pública que construiu, mas seria ainda melhor que se reeditasse a sua obra. Sob pena do Pacheco se tornar apenas numa personagem extravagante da nossa literatura. E ele foi mais que isso. Foi um escritor de corpo inteiro, ainda que tenha misturado a vida com a literatura.
Um poema de Carlos de Oliveira
No outro dia dei-me conta que não conheço poemas felizes. Só dor, só dor. E este, meus amigos, é um dos poemas mais dolorosos que já se escreveram em língua portuguesa. E quem disser o contrário é tolo.
BOLOR
Os versos
que te digam
a pobreza que somos,
o bolor nas paredes
deste quarto deserto,
o orvalho da amargura
na flor
de cada sonho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.
Carlos de Oliveira
Dinis Machado - Qual o lado mais cómico disto?
Este continua a ser um dos meus textos favoritos. É uma lição de vida em quatro parágrafos. E há quem não compreenda que eu faça esta pergunta constantemente. E também a pergunta inversa: "Qual o lado mais dramático disto?"
É útil. Permite o afastamento que de outra forma não conseguiria.
"Qual o lado mais cómico disto?
Andava nessa altura a rir-me muito com as caras burlescas do cinema, não sabia que Shakespeare e Bergman existiam, ainda não tinha lido alguns livros trágicos e patéticos – e se soubesse que devia ter a faculdade de me rir de mim próprio, sabia-o sem o saber. Quando uma vez caí, a patinar no passeio com botas cardadas, e parti o dente da frente, fiz a pergunta calada e sacramental, enquanto as pessoas olhavam para mim:
- Qual é o lado mais cómico disto?
Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava (dos meus avós, das minhas velhas tias, por exemplo), e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro.
Creio que os cómicos do cinema me compreendiam melhor que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura e a paciência evangélica dos grandes missionários da naturalidade."
Dinis Machado em Reduto Quase Final
Das evidências
Ela tem trinta dois anos e ainda não percebeu que vive enganada. Procura o que não deve e quem procura o que não deve encontra o que não deve. Ela talvez nunca venha a perceber isso e viverá infeliz o resto da vida. Eu percebi ao fim de dez minutos a seu lado. Não sou perspicaz, sou bom a perceber evidências.
Do utilitarismo
Fomos à praia em Outubro, num dia que prometia vendaval. O vendaval foi amigo e só apareceu de tarde, quando já tínhamos molhado os pés e conversado.
Sentados numa toalha que eu, irrequieto, enchia de areia a cada dez minutos, expliquei-me como engano a solidão e a necessidade que todos nós sentimos de ter alguém a nosso lado. Expliquei-lhe que tenho amizades utilitárias. Contei-lhe que saio muito raramente com amiga apenas porque gosto que ela me mexa no cabelo e vice-versa. Saímos, conversamos e eu deito a cabeça no seu colo e ela mexe-me no cabelo. Depois, cada um vai à sua vida, indiferentes ao que se passa na vida de cada um. Não há nada de errado nisto, expliquei-lhe.
Umas horas mais tarde, já com o vendaval a molhar as ruas, ela disse-me que tenho um olhar sofrido.
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